Dados da Anatel e dos provedores mostram até 6,2 clientes por IP; entenda quando vale comprar proxy IPv4 ou ISP e quando pedir IP fixo


Crédito da imagem: Foto por JoshuaWoroniecki / Pixabay · 

Concórdia fechou setembro de 2026 com 35.400 acessos de internet fixa, segundo os dados abertos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A fibra óptica responde por 91% deles, e 23 empresas atendem a cidade. Um levantamento feito para esta reportagem mostra um lado menos visível desse avanço: em pelo menos 17 mil dessas conexões, 48% do total, o provedor não tem endereços de internet suficientes para entregar um exclusivo a cada cliente. Essas casas e empresas saem para a internet por um número dividido com outros assinantes.

O dado ajuda a responder uma dúvida que aparece cada vez mais entre quem trabalha online na região. Quando vale comprar proxy, o serviço que aluga um endereço de internet exclusivo? E quando o IP que vem com a conexão já basta?

Como o levantamento foi feito

Todo aparelho conectado aparece para os sites por um número, o endereço IP. No padrão mais usado, o IPv4, esses números são limitados. Cada provedor só usa os blocos registrados em seu nome e anunciados ao resto da rede, e esse anúncio é público.

A conta cruzou duas bases abertas. Da Anatel saiu quantos acessos cada empresa tem em Concórdia e no país inteiro. Do RIPEstat, serviço de dados mantido pelo RIPE NCC, um dos cinco registros regionais de endereços do mundo, saiu quantos endereços IPv4 cada provedor anuncia hoje. Entraram na análise os seis provedores regionais com rede própria que atendem a cidade. Juntos, eles respondem por 84,8% das conexões de Concórdia.

Provedor (pela fatia na cidade) Fatia em Concórdia Clientes por IPv4 anunciado
1º 60,1% 2,6
2º 11,4% 3,2
3º 6,4% 0,6 (sobram endereços)
4º 2,9% 0,8 (sobram endereços)
5º 2,6% 6,2
6º 1,4% 4,3

Quatro dos seis têm mais clientes do que endereços. No maior deles, com seis em cada dez conexões da cidade, são 2,6 clientes para cada IPv4. No quinto, passam de seis. Aplicando a proporção de cada empresa às conexões que ela mantém em Concórdia, chega-se ao piso de 17 mil acessos sem chance de IP exclusivo.

O número é conservador. Parte dos endereços de qualquer provedor vai para servidores, links dedicados e equipamentos de rede, e não para residências. As grandes operadoras nacionais, que usam os mesmos blocos para celular e internet fixa, ficaram de fora, assim como a internet por satélite. Os provedores não são identificados. Dividir endereço é uma prática legal, comum em todo o país, e não indica serviço pior.

Por que os endereços acabaram

O IPv4 comporta cerca de 4,3 bilhões de números, menos que a quantidade de aparelhos conectados no planeta. Na América Latina, quem distribui os blocos é o LACNIC, que zerou o estoque em agosto de 2020. Desde então, um provedor novo entra numa fila e, quando chega a vez, recebe no máximo 1.024 endereços. Para crescer depois disso, resta comprar blocos de terceiros ou dividir os que já tem.

A divisão tem nome técnico: CGNAT, sigla em inglês para tradução de endereços em escala de operadora. O provedor coloca vários clientes atrás de um único IP público e separa o tráfego de cada um por portas. Para quem navega, nada muda na tela. Para os sites, todos aqueles clientes chegam pelo mesmo número.

A saída de longo prazo é o IPv6, a versão nova do protocolo, que tem endereços de sobra. Pela medição do APNIC Labs, braço de pesquisa do registro de endereços da Ásia e do Pacífico, 70% dos usuários do maior provedor de Concórdia já conseguem usar IPv6, acima da média brasileira, de 60%. No segundo maior, são 56%. A mudança ajuda, mas não resolve tudo. Quando o site do outro lado não aceita IPv6, a conexão volta para o IPv4 compartilhado.

Quando dividir o IP faz diferença

Para a maioria das pessoas, o compartilhamento passa despercebido. Vídeo, redes sociais, aplicativo de banco e WhatsApp funcionam normalmente, porque essas plataformas estão acostumadas a receber muitos usuários de um mesmo endereço, como acontece em toda rede de celular.

O problema aparece em quatro situações comuns no dia a dia das empresas:

  • Sistemas que só aceitam endereço cadastrado. Muitos sistemas de gestão na nuvem, portais de fornecedores e serviços bancários para empresas oferecem ao administrador a opção de liberar o acesso só para IPs conhecidos. Com um número dividido, que pode mudar e é usado por desconhecidos, não há o que cadastrar com segurança.
  • Bloqueio por tabela. Se outro cliente atrás do mesmo IP dispara spam, roda um robô ou tenta invadir contas, o endereço ganha má reputação. Quem não fez nada passa a ver verificações do tipo “não sou um robô” e avisos de tráfego incomum.
  • Várias contas da mesma empresa. Agências e equipes que cuidam de perfis de clientes diferentes, contas de anúncio ou lojas em marketplaces precisam separar os acessos. Com um endereço compartilhado, tudo parece sair do mesmo lugar, junto com vizinhos que ninguém conhece.
  • Acesso de fora para dentro. Ver as câmeras da propriedade pelo celular, acessar um servidor do escritório ou receber conexões num sistema exige IP público na própria linha. Proxy não resolve esse caso. É preciso pedir o endereço ao provedor ou usar outra solução, como uma VPN com IP fixo.

Em Concórdia, 4.196 acessos, perto de 12% do total, estão em nome de empresas, segundo a Anatel. É nesse grupo, de agroindústrias e transportadoras a escritórios de contabilidade e lojas virtuais, que as três primeiras situações costumam pesar.

Comprar proxy ou pedir IP fixo ao provedor?

São soluções diferentes, e a escolha depende do problema.

O IP fixo do provedor muda o endereço da conexão inteira. Tudo o que passa pelo roteador sai por ele, inclusive o acesso de fora para dentro. Em geral, vem nos planos para empresas. No segundo maior provedor da cidade, por exemplo, o site mostrava em 4 de novembro o IP fixo incluído a partir do plano empresarial de 300 mega, de R$ 159,90 por mês. O plano de entrada, de 100 mega e sem IP fixo, custava R$ 139,90. Para um escritório que precisa de um único endereço estável e de acesso às próprias câmeras, essa costuma ser a opção mais em conta. A limitação é que o número fica preso ao local da instalação e é um só.

O proxy funciona de outra forma. Ele é um intermediário: o navegador ou o programa configurado passa a sair por um endereço alugado e exclusivo, que não depende da conexão de quem está usando. O mesmo IP funciona no escritório, em casa, no notebook em viagem ou com o 4G do celular. E dá para ter vários, um para cada conta ou cliente, o que um plano de internet comum não costuma oferecer.

Para quem decide comprar proxy IPv4 com endereço exclusivo, a ProxyBox, empresa brasileira do setor, cobra a partir de R$ 30 por mês por IP de data center, com pagamento por Pix e acesso liberado no painel depois da compensação. Em contas que pedem mais confiança, como perfis comerciais e contas de anúncio, a alternativa é comprar proxy ISP: o número aparece registrado em nome de uma operadora de banda larga, não de um data center, e custa R$ 50 mensais.

Também há limites. O proxy vale só para o que for configurado para usá-lo, não acelera a conexão e pode somar um pequeno atraso, já que os dados fazem um caminho a mais. Ele cuida do endereço, não da segurança da conta, que segue dependendo de senhas próprias e da confirmação em dois passos.

O que conferir antes de fechar a compra

O mercado tem dezenas de vendedores, e as diferenças nem sempre aparecem na vitrine. Seis pontos ajudam a separar as ofertas:

  1. Exclusividade. Pacotes muito baratos, com centenas de IPs, quase sempre são compartilhados. Para cadastrar em sistema ou separar contas, o endereço precisa ser só seu.
  2. Tipo de endereço. IP de data center atende consultas, automação e sistemas internos. Em plataformas mais rigorosas com contas, o IP de provedor tende a passar com menos verificações.
  3. Forma de autenticação. Muitos serviços liberam o proxy pelo IP de quem usa. Para quem está atrás de CGNAT, isso atrapalha, porque o endereço de saída é compartilhado e pode mudar sem aviso. Prefira usuário e senha.
  4. Renovação no mesmo número. Se o endereço vai ser cadastrado em algum sistema, confirme que a renovação mantém o IP.
  5. Pagamento e nota fiscal. Pagar em reais evita câmbio e IOF, e a empresa pode precisar da nota para a contabilidade.
  6. Localização. A cidade que os sites atribuem a um IP é sempre aproximada. Se o uso depende de aparecer em Santa Catarina, pergunte antes de pagar.

Para saber se a sua linha já divide endereço, há um teste simples. Entre na página de configuração do roteador e anote o endereço externo, que costuma aparecer como WAN ou internet. Depois, compare com o número mostrado por um site de consulta de IP, como a página Meu IP da ProxyBox. Se forem diferentes, a conexão passa por uma tradução de endereços no provedor. Se o do roteador estiver entre 100.64.0.0 e 100.127.255.255, faixa reservada pela norma técnica RFC 6598 exatamente para esse fim, é CGNAT.

O retrato tem limites. Os blocos anunciados mostram quantos endereços cada provedor tem, não como ele os distribui, e a conta supõe que a proporção nacional se repete em Concórdia. Um provedor pode alugar endereços de terceiros, e quem tem IP sobrando pode, ainda assim, adotar CGNAT por padrão. Mesmo com essas ressalvas, o quadro é claro: na internet de Concórdia, o endereço exclusivo deixou de vir junto com a conexão e virou item à parte, seja no plano empresarial do provedor, seja num proxy contratado.